
A casa é de Ogum — casa de homem, comandada por mulher. Quem for de bem, que “se achegue”
Houve um tempo em que o encanto aconteceu pela primeira vez. Quando tudo ainda precisava ser dito, registrado, defendido. Quando escrever a memória era urgente.
Depois, o tempo fez o que sempre faz: passou.
Andou com seus silêncios, suas partidas, seus mistérios. Andou carregando nomes e palavras, deixando fundamentos. E houve o tempo de hibernação — não de ausência, mas de recolhimento. Porque o Axé também sabe dormir para sonhar com o futuro.
Mãe Cléo, nossa olori-egbé, sempre soube disso.
Que casa de Axé não se constrói só com tijolos, mas de intenção. E de muito trabalho.
Ìṣẹ́ ni ń kọ́ ilé, kì í ṣe ọ̀rọ̀.
É o trabalho que constrói a casa, não a palavra.
Soube que uma roça pode nascer do cuidado, quando o desejo era apenas acolher Mãe Xagui, e assim fez-se um continente inteiro. Soube que Ogum é vanguarda não porque anda muito rápido, mas porque caminha firme e para frente, minha gente.
Foi assim, em Santana de Parnaíba, que do chão brotou roça. O Asiwaju tomou forma sem pressa, mas com direção. Xangô chegou primeiro — como tinha de ser. Depois vieram outros Orixás, outras histórias…
Nossa Agbeni atravessou iniciações, perdas, aprendizagens, retornos. Acumulou títulos, cargos, responsabilidades. Rainha de espada na mão, sempre pronta para a guerra.
De volta a São Paulo depois de mais de duas décadas em Salvador trazendo no corpo e no gesto os ensinamentos de Mãe Stella, de quem foi discípula atenta e disciplinada: seu tempo era aquele, como agora. O tempo mandou e ela obedeceu: em 2016, as portas se abriram de novo. Não como quem recomeça do zero, mas como quem reencontra o fio. Aquele fiozinho de água doce que nunca deixou de correr no fundão da propriedade de quase quatro mil metros quadrados de terras bandeirantes…
E então aconteceu o reencanto.
Não o encanto inaugural, que precisava provar sua existência. Mas o reencanto de quem já sabe durar.
Em 2026, o Asiwaju fará quarenta e três anos. Mãe Cléo fará setenta, bem nascida em 1956. Gabriela, aquela de cravo-e-canela, é um pouco mais nova: 1958. Não era filha de Iansã mas tinha vento nos pés. Como Cléo, essa sim, coroada no caminho.
O Asiwaju, hoje, não é apenas casa de culto: é chão de memória, ação política, território simbólico. É casa que ajudou a dar nome a um lugar. Casa que trouxe luz elétrica antes da luz ser promessa oficial. Casa que marcha para ser centro cultural porque entende que Axé também educa, preserva, projeta futuro.
Ogum segue na frente. Com as portas abertas e Iansã no comando.
Mãe Cléo, aos setenta, não olha para trás com nostalgia. Olha em volta com lucidez e orgulho. E adiante com responsabilidade.
Reencantar não é repetir o passado. É permitir que ele continue falando — em outra voz, em outro tempo, no mesmo Axé.
E assim seguimos.
Quem for de bem, que “se achegue”.
A porta continua aberta. E a espada na mão.
Sua benção, OYA AKORO MI LONAN!
Ricardo Costa, Oguntobiodé.
Presidente da ASSOCIAÇÃO SANTANA DE PARNAÍBA DO ILÊ AXÉ ASIWAJU.
Janeiro, 2026.


Em breve…

Em breve…

Em breve…
VIDA PLENA
por CLÉO MARTINS
Abro, agora, o dicionário Silveira Bueno e procuro a palavra intolerância, enxugando os olhos sofridos desde o dia 11 de Setembro, pouco após ter retornado da Conferência Mundial da ONU, em Durban, e penso em tanto sangue derramado pelos inocentes, repelindo, da memória implacável, a alegria de alguns que talvez também tombem vítimas da mesma praga.
Lembro-me do museu das bruxas. Um museu de bonecos de cera que retratava a história de tanta gente queimada no fogo da intransigência dos divisores. Por falar nisso, no final da exposição dos bonecos, neste museu de Salem, em Massachusetts, aparecia a figura do demônio de chifres, rabo, tridente e pés-de-bode gargalhando a proclamar que sua causa é sempre defendida em nome de Deus… Senti calafrios.

Para mim, ao longo de uma vida religiosa já experimentada na marcha pró Luz, o Transcendente é e sempre será Infinito amor e eterna Chama; vive em todas as culturas, revela-se para toda a humanidade. E para todos e todas tem uma palavra de amor; a despeito da coloração da pele ou cultura.
Por falar em cultura, ruminando a palavra intolerância (que não tolero) penso na baiana do acarajé: mulher impecavelmente vestida nos trajes típicos que falam por si, mas precisam de especialista para serem explicados; uma baiana cheia de fios de contas e dignidade.
Desde pequena, sentia-me fascinada ao ver Dona Raimunda de Iansã, soteropolitana residente em Sampa, dona do restaurante baiano frequentado por artistas, na Rua Capote Valente, perto do colégio Stella Maris onde estudei muito tempo. Ela, à frente do tabuleiro, na tarefa imponente de “produzir bolinhos perfumados” no azeite de dendê…
No final da década de 1960, acarajé, na pauliceia, era coisa desconhecida: verdadeira aventura dos mais atirados. Alguns conterrâneos (menos caipiras) precisavam ir a restaurantes de comida baiana, a exemplo do elegantíssimo Maria Fulô, da Rua São José, em Santo Amaro, para degustar o saborosíssimo acarajé que sempre foi (e será) comida dos terreiros.
Akará (pão) acrescido do verbo comer – em ioruba ongé – deu nascimento, na Bahia, à palavra acarajé, a comida predileta de Oyá-Iansã, a senhora dos ventos e das tempestades.